
A internacionalização de negócios amazônicos e as oportunidades de acesso a novos mercados foram os temas discutidos, neste sábado (19), durante o painel “Internacionalização de startups amazônicas: Peru, fronteiras e novos mercados”, que ocorreu no Inova Amazônia Summit 2026.
A atividade, realizada no campus da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Rio Branco, reuniu experiências práticas de empreendedorismo e orientações sobre propriedade intelectual para negócios que pretendem ultrapassar as fronteiras brasileiras.
O consultor do Sebrae Nacional e mediador do painel, Felipe Figueiredo, destacou que a internacionalização pode ser pensada desde os primeiros passos de uma empresa. Segundo ele, embora os produtos amazônicos tenham um apelo natural no mercado internacional, é necessário planejamento para transformar esse potencial em negócios.
Para o especialista, é preciso considerar, desde a estruturação da empresa, os cuidados necessários para acessar outros países, já que o processo envolve diferentes etapas e desafios. “Falamos de um processo que muitas vezes pode nascer e deve ser pensado desde a origem do negócio, que é alcançar mercados e mercados internacionais”, explicou.

Experiência no mercado internacional
Uma das experiências apresentadas no painel foi a história da empreendedora Ana Lídia Zoni, responsável pela empresa Hidromel Uruçun da Amazônia. A jornada, de acordo com ela, começou em 2018 e passou por diferentes programas do Sebrae. Em 2022, a empresa realizou a primeira internacionalização para a Alemanha e, atualmente, exporta para mais de 12 países.
Segundo Ana Lídia, participar de programas de apoio foi importante para estruturar o negócio e identificar os consumidores do produto. A empresa também encontrou oportunidades a partir das características específicas do produto, elaborado com mel de abelha sem ferrão.
Para ela, esse diferencial relacionado à origem amazônica contribui para a construção de valor no mercado internacional. “Como ele é elaborado com mel de abelha sem ferrão, então ele tem uma característica que a gente costuma falar, que é um terroir amazônico, que ele é característico da região. Então você pode ter a mesma formulação e tentar replicar esse hidromel em outra região, que ele não vai ficar com o mesmo sabor”, afirmou.

A empreendedora também ressaltou que a identidade amazônica, por si só, não é suficiente para garantir a permanência de um produto no mercado.
“A própria Amazônia hoje é a marca mais vendida, mais benquista do mundo. Só que a gente não tem como vender uma história se a gente não tiver um produto de qualidade, se a gente não tiver um produto regularizado”, destacou.
Para a empreendedora, entender quem são os consumidores e como funcionam as relações comerciais de cada país é uma etapa fundamental para quem pretende internacionalizar um negócio. Ana Lídia citou o mercado peruano como exemplo de estratégia de organização para facilitar a chegada de produtos aos consumidores.
“Eles não olharam o consumidor final do produto, eles olharam o mercado. Então, eles deram um jeito de organizar as pessoas que estavam dentro do país para que esses produtos tivessem uma regularização, tivessem hábitos para acessar o mercado internacional”, explicou.
A empreendedora também destacou que diferenças culturais podem influenciar diretamente nas negociações. Segundo ela, estabelecer parcerias locais também pode facilitar esse processo. No caso da sua empresa, o investidor-anjo alemão, encontrado durante uma missão de internacionalização, passou a contribuir nas negociações no país
“Existem várias questões culturais, não só de saber o mercado, mas conhecer realmente a cultura daquele país e como pode ser a melhor forma de você negociar o seu produto no mercado internacional”, pontuou.
Propriedade intelectual
O painel também contou com a participação do servidor público do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), Jeferson Monteiro Rosa, que explicou a importância de proteger uma invenção antes de buscar sua entrada em outros mercados.
O especialista destacou que a patente é um ativo territorial e que, por isso, o empreendedor interessado em internacionalizar uma invenção precisa considerar a proteção nos países onde pretende atuar.
“A patente é um ativo territorial. Precisa pedir patente nos países que você tem interesse. Então, quando você vai querer internacionalizar a sua invenção, é necessário que você já tenha a patente pedida nesses países”, detalhou.
Jeferson alertou ainda que a divulgação ou o depósito posterior em outro país pode gerar problemas para o processo de proteção, já que os pedidos de patente passam a integrar o estado da técnica e podem ser considerados pelos examinadores em análises futuras.

Para facilitar esse processo, o servidor público apresentou, durante o painel, os mecanismos internacionais que permitem ampliar o prazo para que o empreendedor busque proteção em outros países. Entre eles estão o direito de prioridade previsto na Convenção da União de Paris e o Tratado de Cooperação em Matéria de Patentes (PCT).
“Você tem até 12 meses para fazer em qualquer outro país signatário do tratado. O sistema PCT te dá um tempo adicional de mais de 18 meses. Então, você tem até 30 meses daquele pedido inicial para entrar efetivamente nos outros países”, explicou.
Além do prazo, segundo ele, o sistema PCT oferece uma análise prévia da patenteabilidade, o que pode auxiliar o empreendedor na tomada de decisões e no planejamento dos custos relacionados à proteção da invenção em diferentes mercados.
Durante a atividade, o representante do INPI também explicou que uma invenção precisa atender a requisitos específicos para obter uma patente. Entre eles estão a novidade, a atividade inventiva e a aplicação industrial.
Ele explicou que a novidade está relacionada à inexistência de algo igual no estado da técnica, enquanto a atividade inventiva envolve a análise sobre o quanto aquela solução é óbvia diante dos conhecimentos e tecnologias já existentes. Já a aplicação industrial está relacionada à possibilidade de reproduzir a invenção industrialmente.
“A invenção tem que basicamente respeitar alguns requisitos. Não dá para entrar a fundo em muitos requisitos, mas basicamente a invenção tem que ser nova, inventiva e ter aplicação industrial”, destacou.
